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O
mercado de trabalho chega a 2026 marcado por uma contradição cada vez mais
evidente: enquanto salários avançam pouco e a satisfação dos profissionais com
a remuneração permanece em níveis historicamente baixos, a disputa por talentos
segue intensa em praticamente todos os setores. O cenário revela um ambiente
corporativo mais tenso, com desafios que extrapolam a economia e atingem
diretamente a relação entre empresas, lideranças e equipes.
De
acordo com o Guia Salarial da Michael Page, apenas 20% das empresas planejam
conceder aumento real acima da inflação. Em contrapartida, 60% dos
profissionais não receberam qualquer reajuste no último ano e apenas 5% afirmam
estar satisfeitos com a remuneração atual. Ainda assim, 73% das organizações
relatam dificuldade para contratar talentos em todos os níveis hierárquicos,
evidenciando um descompasso entre as expectativas dos profissionais e a
capacidade das empresas de atraí-los e retê-los.
Para
Izabela Holanda, diretora da IH Consultoria e Desenvolvimento Humano, o dado
expõe uma mudança estrutural no valor atribuído ao trabalho. “O salário
continua sendo um fator relevante, mas já não sustenta sozinho o vínculo entre
empresa e profissional. Quando a remuneração não acompanha o custo de vida e
não há perspectiva clara de crescimento, o engajamento tende a cair”, analisa.
Além
da pressão financeira, cresce o distanciamento emocional e estratégico entre
colaboradores e lideranças. O Worklife Trends Report 2026, do Glassdoor, aponta
um aumento expressivo de menções negativas relacionadas à alta gestão. Termos
como “desalinhamento” cresceram 149% entre 2024 e 2025, enquanto “desconexão”
avançou 24% e “desconfiança”, 26%. O levantamento analisou mais de 7 milhões de
avaliações, salários e entrevistas de profissionais na plataforma.
Segundo
o relatório, esse ambiente mais crítico está associado a uma nova dinâmica de
desligamentos. Em vez de grandes cortes concentrados, as empresas passaram a
adotar demissões contínuas e pontuais. Cortes envolvendo menos de 50
profissionais representavam 38% dos desligamentos em 2015 e chegaram a 51% em
2025, reforçando a sensação de instabilidade permanente nas organizações.
“Esse
tipo de movimento fragmentado gera insegurança constante. O profissional não
sabe quando será impactado e passa a questionar decisões estratégicas,
coerência da liderança e até o propósito da empresa”, explica Izabela Holanda.
Outro
ponto central do debate para 2026 é o futuro do trabalho híbrido. Embora o
modelo remoto tenha se consolidado em diversos setores, cresce a pressão pelo
retorno parcial ou total ao presencial, especialmente em cargos estratégicos e
posições de liderança. A tendência reforça um dilema para muitos profissionais:
manter a flexibilidade conquistada nos últimos anos ou ampliar a visibilidade
interna como estratégia de crescimento na carreira.
“A
discussão não é mais sobre onde se trabalha, mas sobre como o trabalho
acontece. Organizações que não conseguirem alinhar flexibilidade, cultura e
critérios justos de avaliação tendem a enfrentar maior rotatividade”, avalia a
especialista.
No
campo das competências, a tecnologia segue como protagonista das
transformações. A inteligência artificial avança de forma gradual, mas
consistente, redefinindo funções e elevando o nível de exigência do mercado.
Para 2026, ganha força o perfil de profissional adaptável, com capacidade de
aprender continuamente e integrar ferramentas digitais ao dia a dia, sem perder
competências humanas como pensamento crítico, comunicação e liderança.
“A IA
não elimina o fator humano, mas eleva o nível de exigência. O diferencial
estará em quem souber usar a tecnologia de forma estratégica e ética, agregando
valor ao negócio”, destaca Izabela Holanda.
A
gestão de talentos também passa por ajustes importantes. Consultorias e
especialistas apontam maior foco em mobilidade interna, programas de
requalificação e no desenvolvimento de lideranças preparadas para ambientes
complexos e instáveis. Nesse contexto, o investimento em educação contínua
deixa de ser um benefício adicional e passa a ser uma necessidade competitiva
para empresas e profissionais.
Para
Izabela, 2026 será um ano decisivo para quem souber se antecipar às mudanças.
“Carreiras menos lineares, aprendizado constante e relações de trabalho mais
transparentes não são tendências futuras, já são realidade. Empresas e
profissionais que entenderem isso mais cedo estarão melhor posicionados para
atravessar esse novo ciclo do mercado de trabalho”, conclui.