Com a
chegada de um novo ano e a proximidade do Carnaval, muitas pessoas buscam
perder peso rapidamente. Neste cenário, as chamadas canetas emagrecedoras têm
ganhado cada vez mais espaço entre os brasileiros. Segundo pesquisa da Reds
Research, 19% da população já usou o
medicamento. Apesar de serem utilizadas para emagrecimento, elas foram criadas
para tratar diabetes e apresentam uma série de efeitos colaterais, entre eles
desequilíbrios gastrointestinais, metabólicos, na glicemia, pressão arterial,
além da saúde bucal.
O
aumento na procura acontece em um contexto de excesso de peso na população do
Brasil. De acordo com levantamento do Datafolha, 59% dos habitantes do país
estão acima do peso, sendo 35% com sobrepeso e 24% com obesidade. Davi Cunha,
cirurgião-dentista, conta que um dos efeitos colaterais é a xerostomia,
condição conhecida como boca seca, causada pela redução do fluxo salivar.
“A
saliva é fundamental para a proteção da boca. Ela lubrifica os tecidos, auxilia
na fala e na deglutição, além de neutralizar ácidos e ajudar na limpeza natural
dos dentes. Quando esse fluxo diminui, o ambiente bucal fica mais vulnerável à
proliferação de bactérias”, explica o cirurgião-dentista.
A redução
da saliva também pode gerar o surgimento de mau hálito e aumentar o risco de
cáries. Sem a ação protetora salivar, o pH da boca tende a se desequilibrar,
criando condições propícias para o desenvolvimento de lesões dentárias e
inflamações gengivais.
Além
disso, outro ponto de atenção são os efeitos gastrointestinais como náuseas e
vômitos frequentes. “O contato recorrente do ácido do estômago com os dentes
provoca desgaste do esmalte, deixando-os mais amarelados, sensíveis e
suscetíveis à cárie e à gengivite”, pontua Cunha.
Risco
à vida
O
cirurgião bariátrico Dr. Paulo Campelo, presidente da Sociedade Brasileira de
Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM) – Capítulo Ceará, alerta ainda para
outros riscos associados ao uso indiscriminado das canetas emagrecedoras.
“Estamos falando de medicamentos potentes, que atuam diretamente no sistema
digestivo e interferem na glicemia e na pressão arterial. O uso sem prescrição
e sem monitoramento pode levar a complicações graves, com desfechos trágicos e
irreversíveis”, destaca.
O
presidente da SBCBM–Ceará, alerta que a automedicação e a aquisição clandestina
desses produtos representam um risco real à vida. “Nenhum resultado estético
justifica colocar a saúde em perigo. Esses medicamentos não podem, em hipótese
alguma, ser utilizados de forma recreativa ou irresponsável, sem acompanhamento
profissional. O tratamento da obesidade precisa ser sério, seguro e baseado em
evidências”, conclui.
Mercado
em crescimento
Segundo
o Ministério do Desenvolvimento (MDIC), as importações de canetas emagrecedoras
tiveram um aumento significativo no último ano, com uma alta de 88% entre 2024
e 2025. Augusto Fernandes, especialista em despacho aduaneiro, comenta que esse
crescimento tende a se manter nos próximos anos, impulsionado pelo aumento da
demanda.
“Hoje,
os tratamentos variam entre R$ 1.000 e R$ 3.500 por pessoa, por mês, o que
ampliou significativamente o acesso e popularizou esse tipo de terapia. Não por
acaso, o setor fechou 2025 com um crescimento estimado em R$ 9 bilhões,
refletindo a consolidação desse segmento no mercado brasileiro”, fala
Fernandes.

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