Poucos
medicamentos dermatológicos geram tanta desinformação quanto a isotretinoína,
popularmente conhecida pelo nome comercial Roacutan. Usado há mais de 40 anos
no tratamento da acne, o remédio segue cercado de mitos que assustam pacientes
que, muitas vezes, poderiam se beneficiar do tratamento.
A acne
atinge cerca de 80% dos adolescentes entre 11 e 20 anos, segundo a Sociedade
Brasileira de Pediatria, mas só uma pequena parte desses casos evolui para
formas graves que justificam o Roacutan. O consenso da Sociedade Brasileira de
Dermatologia (SBD) sobre o medicamento aponta que cerca de 65% dos efeitos
adversos relatados são dermatológicos, como ressecamento de pele e lábios,
geralmente leves e controláveis.
Segundo
o dermatologista Dr. Márcio Sousa, a isotretinoína não é indicada para qualquer
tipo de acne. “O Roacutan é reservado para casos de acne moderada a grave,
nodulocística ou conglobata, e para quadros resistentes a tratamentos
anteriores, como antibióticos orais e produtos tópicos. Também consideramos o
uso quando a acne está deixando cicatrizes permanentes ou causando sofrimento
psicológico significativo ao paciente”, explica.
O
medicamento, derivado da vitamina A, atua reduzindo o tamanho das glândulas
sebáceas e a produção de oleosidade da pele, com resposta clínica observada
geralmente entre 8 e 16 semanas de uso contínuo.
Entre
os mitos mais comuns, o médico destaca a crença de que a isotretinoína causa
depressão ou ideação suicida. “Essa associação ainda gera muita preocupação,
mas os estudos científicos mais recentes não demonstram uma relação causal
entre o medicamento e esses quadros. Na verdade, diversos trabalhos mostram
que, à medida que a acne melhora, muitos pacientes apresentam ganho de
autoestima e melhora da qualidade de vida, com redução do sofrimento
psicológico associado à doença. Ainda assim, todo paciente deve ser acompanhado
de forma individualizada durante o tratamento”, explica.
O
especialista também reforça que a isotretinoína é teratogênica, ou seja,
oferece risco grave ao feto se a paciente engravidar durante o tratamento. “Por
isso exigimos contracepção rigorosa em mulheres. Mas isso não significa
infertilidade: após o término do tratamento, a fertilidade não é afetada”,
esclarece.
Já os
efeitos colaterais mais frequentes, como ressecamento da pele e dos lábios,
fotossensibilidade e alterações em exames de sangue, são esperados,
dose-dependentes e monitorados durante todo o tratamento. “Com acompanhamento
médico rigoroso, exames periódicos e orientação adequada, o Roacutan é um
tratamento seguro e, muitas vezes, transformador para quem convive com acne
grave há anos”, conclui Márcio Sousa.

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