Por
anos, o licenciamento no varejo e no foodservice seguiu um roteiro previsível:
a indústria aguardava o lançamento de um grande filme, escolhia um personagem
central e construía campanhas pontuais, quase sempre com prazo de validade
curto. O movimento funcionava como uma onda, quem surfasse no momento certo
ganhava atenção, tráfego e vendas; quem chegasse depois, ficava para trás.
Nos
últimos ciclos, porém, esse modelo começou a dar sinais de esgotamento. Em um
cenário de consumidores hiperexpostos a estímulos e lançamentos semanais,
marcas passaram a perceber que a disputa já não é apenas por visibilidade
momentânea, mas por território cultural. O licenciamento deixa de ser tático e
passa a ser estratégico quando se conecta a comunidades, comportamentos e
economias próprias, como a cultura geek e o mercado de colecionáveis, por
exemplo.
Esse
contexto ajuda a explicar por que algumas marcas estão abandonando a lógica do
“filme da vez” e apostando em ecossistemas de franquias, ampliando o ponto de
contato com diferentes públicos ao mesmo tempo.
Do
blockbuster ao multiverso
Dados
da Statista mostram que o mercado global de licenciamento de personagens
movimentou mais de US$ 340 bilhões em vendas no varejo em 2024, impulsionado
não apenas por estreias no cinema, mas por fandoms consolidados, eventos presenciais
e comunidades digitais. A economia geek, que envolve produtos colecionáveis,
games, quadrinhos e experiências imersivas, já movimenta bilhões de dólares por
ano globalmente, segundo a PwC.
No
Brasil, eventos como a CCXP, ajudam a dimensionar esse fenômeno. Mais do que um
festival, a CCXP se consolidou como um termômetro da força do consumo ligado à
cultura pop, onde personagens não são apenas entretenimento, mas símbolos de
identidade, pertencimento e desejo de coleção.
É
nesse território que algumas marcas começam a se posicionar de forma mais
intencional.
O
Bob’s e a aposta no licenciamento ampliado
Em vez
de atrelar sua estratégia a um único lançamento, o Bob’s decidiu ampliar o
escopo da conversa. A campanha Bob’s Play e Universo DreamWorks Animation, que
começa no dia 11 de fevereiro, reúne cinco personagens de franquias diferentes:
Shrek, Madagascar, Como Treinar o Seu Dragão, Trolls e Gato de Botas, todos em
uma mesma coleção.
A
lógica rompe com o padrão tradicional do mercado. Ao reunir múltiplos
universos, a marca amplia a chance de conexão com perfis distintos: crianças
pequenas, pré-adolescentes, millennials nostálgicos e até adultos
colecionadores, público que cresce ano após ano e movimenta cifras relevantes
na indústria do entretenimento.
As
miniaturas, desenvolvidas no formato bobblehead, reforçam esse apelo. O design,
mais próximo de itens colecionáveis do que de brindes descartáveis, dialoga
diretamente com uma lógica de recompra e de construção de série comportamento
típico do público geek.
Licenciamento
como plataforma, não como ação
O que
esse tipo de movimento sinaliza para o mercado é uma mudança de mentalidade. Em
vez de usar personagens apenas como chamariz para vendas imediatas, marcas
passam a tratar o licenciamento como plataforma de relacionamento, capaz de
sustentar narrativas mais longas e transversais.
Esse
racional aparece também em outros setores. A LEGO transformou franquias do
cinema em pilares estruturais de crescimento e de conexão com novos públicos. A
Nike recorre à cultura pop e ao storytelling para criar escassez e desejo. A
própria indústria de streaming investe em produtos físicos para manter suas
propriedades vivas fora das telas, movimentando cifras muito mais substanciais
em produtos licenciados do que os que realmente envolve o negócio da
plataforma.
No
foodservice, onde diferenciação é cada vez mais desafiadora, esse tipo de
estratégia funciona como um atalho cultural: aproxima a marca de universos já
carregados de significado e reduz o custo simbólico de entrar em novas
conversas.
O que
está em jogo?
Mais
do que vender combos infantis, campanhas como essa revelam uma tendência mais
ampla: marcas querem deixar de ser apenas pontos de consumo para se tornarem
pontos de contato cultural. Ao dialogar com franquias consolidadas e com
comunidades ativas, elas se inserem em rotinas que vão além da refeição.
Em um
mercado em que atenção virou ativo escasso, não basta esperar o próximo filme
estrear. A disputa agora é por relevância contínua e, cada vez mais, ela passa
pelo mesmo lugar onde fãs se encontram, colecionam, compartilham e constroem
identidade.
Sobre
o Bob’s
O
Bob’s, primeira rede de fast food e de franquias de alimentação do Brasil,
fundada em 1952 no burburinho de Copacabana, rapidamente lançou moda e virou
mania entre os cariocas. Sua expansão pelo Brasil começou em 1984 por meio de
um bem-sucedido sistema de franquias, que segue até hoje oferecendo suporte
para todos os interessados em abrir uma unidade da rede. Atualmente, são mais
de 1.000 pontos de venda em todas as regiões do Brasil.
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