Compliance
costuma ser associado a regras internas, auditorias e prevenção de fraudes. No
ambiente de trabalho, porém, as políticas de integridade também podem ter
impacto direto sobre os funcionários, especialmente diante de situações que
envolvem assédio, conflitos de interesse, manipulação de informações ou pressão
para descumprir procedimentos.
O tema
ganhou uma nova dimensão em 2026 com a entrada em vigor, em 26 de maio, da nova
redação da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passou a incluir os fatores
de risco psicossociais relacionados ao trabalho no gerenciamento de riscos
ocupacionais. A mudança amplia a atenção das empresas para aspectos que podem
afetar a saúde e a segurança dos trabalhadores.
Nesse
contexto, conhecer os canais internos, as regras da organização e os limites de
conduta pode ajudar o profissional a identificar situações que não devem ser
naturalizadas.
Para a
advogada e especialista em Nova Economia Genyffer Kasprzykowski, o compliance
também deve ser compreendido como um mecanismo de prevenção para quem trabalha
na organização.
“Um
programa de integridade eficiente precisa estabelecer limites claros de conduta
e oferecer mecanismos seguros para comunicar irregularidades. O trabalhador
precisa saber quais comportamentos são inadequados e onde buscar orientação
quando uma situação gerar dúvida”, explica.
1.
Assédio e comportamentos abusivos
Humilhações
recorrentes, intimidação, discriminação e outros comportamentos abusivos podem
comprometer o ambiente profissional e não devem ser tratados simplesmente como
parte da rotina ou da pressão por resultados.
A
inclusão dos fatores de risco psicossociais na gestão de riscos ocupacionais
reforça a necessidade de as organizações identificarem e administrarem
situações relacionadas à organização do trabalho e às condições que podem
afetar os trabalhadores.
Para
Genyffer, a existência de regras formais precisa vir acompanhada de aplicação
prática. “Não adianta existir um código de conduta se determinados
comportamentos continuam sendo tolerados no cotidiano. A cultura da organização
também precisa refletir essas regras”, afirma.
2.
Conflitos de interesse
Outro
sinal de atenção aparece quando interesses pessoais podem interferir em
decisões profissionais. Relações pessoais com fornecedores, favorecimento em
negociações ou obtenção de benefícios particulares em razão do cargo são
exemplos que podem exigir avaliação da empresa.
Isso
não significa que toda situação represente uma irregularidade. O ponto central
é a transparência e a possibilidade de declarar e analisar potenciais
conflitos.
“O
importante é que existam regras claras para que esses conflitos sejam
comunicados e avaliados. A transparência protege tanto a organização quanto o
profissional”, explica a especialista.
3.
Suspeitas de fraude ou manipulação de informações
Pedidos
para alterar documentos, omitir informações relevantes, registrar uma operação
de maneira diferente do que ocorreu ou ignorar procedimentos internos também
merecem atenção.
Programas
de integridade têm entre seus objetivos justamente prevenir, detectar e
corrigir fraudes e outras irregularidades. A Controladoria-Geral da União
(CGU), por exemplo, estabelece mecanismos de prevenção e detecção de atos
ilícitos como parte das práticas de integridade empresarial.
Para o
funcionário, uma orientação importante é não assumir individualmente a
responsabilidade por uma conduta que considere irregular. Em caso de dúvida, os
canais internos de compliance, auditoria, recursos humanos ou outros mecanismos
previstos pela organização podem ser acionados.
4.
Vazamento ou uso inadequado de informações
Dados
de clientes, documentos internos, senhas, informações estratégicas e dados
pessoais também fazem parte da rotina de muitas empresas e exigem cuidados
específicos.
Compartilhar
arquivos por canais não autorizados, utilizar informações corporativas para
finalidades diferentes das previstas ou expor dados pessoais pode gerar riscos
tanto para os titulares quanto para a organização.
A Lei
Geral de Proteção de Dados (LGPD) estabelece regras para o tratamento e a
segurança de dados pessoais. Em determinadas situações, incidentes de segurança
que possam causar risco ou dano relevante aos titulares precisam ser
comunicados à Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) e aos envolvidos.
Por
isso, o funcionário deve conhecer as políticas internas de segurança da
informação e evitar compartilhar dados fora dos procedimentos estabelecidos
pela empresa.
5.
Pressão para adotar uma conduta irregular
Uma
das situações mais delicadas ocorre quando o funcionário recebe de um superior
uma orientação que considera contrária às normas internas ou à legislação.
A
hierarquia não elimina a necessidade de questionar uma orientação
potencialmente irregular. Nesses casos, registrar a dúvida e utilizar os canais
adequados da organização pode ajudar a preservar tanto o profissional quanto a
empresa.
“O
fato de uma orientação vir de um superior não significa que ela esteja
automaticamente correta. Quando houver dúvida sobre a regularidade de uma
conduta, é importante procurar os canais disponíveis e buscar orientação antes
de executar uma ação que possa gerar consequências”, orienta Genyffer.
Compliance
precisa funcionar na prática
A
existência de um código de ética ou de um canal de denúncias, por si só, não
garante uma cultura de integridade. Esses mecanismos precisam ser conhecidos
pelos funcionários e, principalmente, funcionar de maneira efetiva.
A CGU
destaca a importância de medidas de prevenção, gestão de riscos, governança e
padrões éticos de conduta nos programas de integridade. A lógica é identificar
vulnerabilidades e agir antes que uma situação se transforme em fraude,
conflito ou outro problema de maior proporção.
Para o
trabalhador, isso significa conhecer as regras da empresa, saber a quem
recorrer e compreender que determinadas práticas não precisam ser encaradas
como parte inevitável do ambiente profissional.
“O
trabalhador precisa ter clareza sobre as regras da organização e segurança para
buscar orientação quando identificar uma situação inadequada. Da mesma forma, a
empresa precisa ter processos para receber, analisar e tratar essas
informações”, conclui a especialista.

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