quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

DIA INTERNACIONAL DAS MULHERES E MENINAS NA CIÊNCIA

Foto divulgação

Celebrado em 11 de fevereiro, o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência reforça a importância da participação feminina na produção de conhecimento científico. A trajetória da bióloga Ariane Ferreira, analista de projetos socioambientais da Associação Caatinga, é um exemplo desse protagonismo aplicado à conservação da biodiversidade no semiárido brasileiro.

Integrante da equipe da Reserva Natural Serra das Almas, localizada na divisa entre Crateús (CE) e Buriti dos Montes (PI), Ariane atua no monitoramento do periquito cara-suja (Pyrrhura griseipectus), espécie ameaçada de extinção que, a partir de um projeto de reintrodução, voltou a ser registrada na região após mais de cem anos sem ocorrências confirmadas. Desde a primeira soltura, realizada em dezembro de 2024, dezenas de indivíduos já sobrevoam a reserva, resultado do projeto Refaunar Arvorar, realizado pela Associação Caatinga e pela ONG Aquasis, em parceria com o Parque Arvorar, do grupo Beach Park.

O trabalho exige acompanhamento constante e atenção às particularidades do território. Entre as atividades da Ariane estão a observação da interação entre as aves, a identificação das áreas de uso, o entendimento das rotinas de alimentação e dos padrões de deslocamento das aves, sempre em articulação com a equipe de guarda-parques da reserva. “Esse trabalho não é solitário. Ele é construído coletivamente, a partir da observação compartilhada e do acompanhamento contínuo dos cara-sujas”, explica Ariane.

Natural de São José, na região metropolitana de Florianópolis (SC), Ariane cresceu em contato com a natureza e desenvolveu desde cedo o interesse pelos animais. Incentivada pela família e por uma professora que ampliou sua percepção sobre a Biologia, decidiu seguir a carreira científica. Graduada pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), encontrou sua vocação durante as atividades práticas da formação, especialmente a partir de experiências voluntárias em campo, que despertaram seu interesse pela ornitologia.

A trajetória profissional ganhou novos contornos com sua atuação em Curaçá (BA), em ações voltadas à reintrodução da ararinha-azul, espécie que permaneceu cerca de 20 anos extinta na natureza. Além do trabalho técnico, Ariane coordenou equipes formadas por moradores da comunidade local, vivência que reforçou a importância da integração entre ciência e território. A partir dessa experiência, o Nordeste deixou de ser apenas passagem. Em 2024, participou do censo do periquito cara-suja na Serra de Baturité, primeiro contato direto com a espécie, que abriu caminho para sua atuação atual na Serra das Almas, sob a gestão da Associação Caatinga.

A bióloga destaca que ser mulher em atividades científicas de campo envolve desafios específicos, como deslocamentos frequentes, longas jornadas e atuação em áreas remotas. Ainda assim, o compromisso com a pesquisa segue mesmo após o pôr do sol. Quando os cara-sujas retornam aos dormitórios e o calor diminui, o trabalho continua com registros, organização de dados e planejamento das próximas etapas.

Ao falar com meninas que sonham seguir a carreira científica, mas sentem medo, Ariane deixa uma mensagem: “O medo existe, mas não pode paralisar. Procure outras mulheres, converse, peça apoio e não desista. Isso faz toda a diferença. A ciência também é um espaço nosso”.

Saiba mais sobre o periquito cara-suja

O periquito cara-suja (Pyrrhura griseipectus), espécie endêmica do Ceará, está atualmente classificado como “Em Perigo” na Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção. No passado, a ave chegou a desaparecer de diversas áreas do Nordeste em decorrência da perda de habitat, do desmatamento de matas ciliares e do tráfico de animais silvestres. Até 2017, a espécie era considerada “Criticamente em Perigo”, cenário que começou a mudar a partir do fortalecimento de ações de conservação, como censos populacionais, instalação de ninhos artificiais e projetos de reintrodução.

Em 2024, um censo realizado na Serra de Baturité registrou 1.238 indivíduos, cerca de 400 a mais do que no levantamento de 2022, evidenciando uma recuperação gradual da população. Esse avanço também se reflete no retorno da espécie à Reserva Natural Serra das Almas, no Planalto da Ibiapaba, por meio do projeto Refaunar Arvorar, onde o periquito cara-suja voltou a ser registrado após mais de 114 anos sem ocorrências confirmadas. A primeira soltura na área aconteceu em dezembro de 2024 e, desde então, 25 indivíduos já vivem em liberdade, como resultado de um processo de reintrodução baseado em solturas graduais e monitoramento contínuo.

Sobre a Associação Caatinga

A Associação Caatinga é uma organização da sociedade civil, sem fins lucrativos, cuja missão é conservar a Caatinga, difundir suas riquezas e inspirar as pessoas a cuidar da natureza. Desde 1998, atua na proteção da Caatinga e no fomento ao desenvolvimento local sustentável, incrementando a resiliência de comunidades rurais à semiaridez e aos efeitos do aquecimento global.


 

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