Celebrado
em 11 de fevereiro, o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência
reforça a importância da participação feminina na produção de conhecimento
científico. A trajetória da bióloga Ariane Ferreira, analista de projetos
socioambientais da Associação Caatinga, é um exemplo desse protagonismo
aplicado à conservação da biodiversidade no semiárido brasileiro.
Integrante
da equipe da Reserva Natural Serra das Almas, localizada na divisa entre
Crateús (CE) e Buriti dos Montes (PI), Ariane atua no monitoramento do periquito
cara-suja (Pyrrhura griseipectus), espécie ameaçada de extinção que, a partir
de um projeto de reintrodução, voltou a ser registrada na região após mais de
cem anos sem ocorrências confirmadas. Desde a primeira soltura, realizada em
dezembro de 2024, dezenas de indivíduos já sobrevoam a reserva, resultado do
projeto Refaunar Arvorar, realizado pela Associação Caatinga e pela ONG
Aquasis, em parceria com o Parque Arvorar, do grupo Beach Park.
O
trabalho exige acompanhamento constante e atenção às particularidades do
território. Entre as atividades da Ariane estão a observação da interação entre
as aves, a identificação das áreas de uso, o entendimento das rotinas de
alimentação e dos padrões de deslocamento das aves, sempre em articulação com a
equipe de guarda-parques da reserva. “Esse trabalho não é solitário. Ele é
construído coletivamente, a partir da observação compartilhada e do
acompanhamento contínuo dos cara-sujas”, explica Ariane.
Natural
de São José, na região metropolitana de Florianópolis (SC), Ariane cresceu em
contato com a natureza e desenvolveu desde cedo o interesse pelos animais.
Incentivada pela família e por uma professora que ampliou sua percepção sobre a
Biologia, decidiu seguir a carreira científica. Graduada pela Universidade Federal
de Santa Catarina (UFSC), encontrou sua vocação durante as atividades práticas
da formação, especialmente a partir de experiências voluntárias em campo, que
despertaram seu interesse pela ornitologia.
A
trajetória profissional ganhou novos contornos com sua atuação em Curaçá (BA),
em ações voltadas à reintrodução da ararinha-azul, espécie que permaneceu cerca
de 20 anos extinta na natureza. Além do trabalho técnico, Ariane coordenou
equipes formadas por moradores da comunidade local, vivência que reforçou a
importância da integração entre ciência e território. A partir dessa
experiência, o Nordeste deixou de ser apenas passagem. Em 2024, participou do
censo do periquito cara-suja na Serra de Baturité, primeiro contato direto com
a espécie, que abriu caminho para sua atuação atual na Serra das Almas, sob a
gestão da Associação Caatinga.
A
bióloga destaca que ser mulher em atividades científicas de campo envolve
desafios específicos, como deslocamentos frequentes, longas jornadas e atuação
em áreas remotas. Ainda assim, o compromisso com a pesquisa segue mesmo após o
pôr do sol. Quando os cara-sujas retornam aos dormitórios e o calor diminui, o
trabalho continua com registros, organização de dados e planejamento das
próximas etapas.
Ao
falar com meninas que sonham seguir a carreira científica, mas sentem medo,
Ariane deixa uma mensagem: “O medo existe, mas não pode paralisar. Procure
outras mulheres, converse, peça apoio e não desista. Isso faz toda a diferença.
A ciência também é um espaço nosso”.
Saiba
mais sobre o periquito cara-suja
O
periquito cara-suja (Pyrrhura griseipectus), espécie endêmica do Ceará, está
atualmente classificado como “Em Perigo” na Lista Nacional de Espécies
Ameaçadas de Extinção. No passado, a ave chegou a desaparecer de diversas áreas
do Nordeste em decorrência da perda de habitat, do desmatamento de matas
ciliares e do tráfico de animais silvestres. Até 2017, a espécie era
considerada “Criticamente em Perigo”, cenário que começou a mudar a partir do
fortalecimento de ações de conservação, como censos populacionais, instalação
de ninhos artificiais e projetos de reintrodução.
Em
2024, um censo realizado na Serra de Baturité registrou 1.238 indivíduos, cerca
de 400 a mais do que no levantamento de 2022, evidenciando uma recuperação
gradual da população. Esse avanço também se reflete no retorno da espécie à
Reserva Natural Serra das Almas, no Planalto da Ibiapaba, por meio do projeto
Refaunar Arvorar, onde o periquito cara-suja voltou a ser registrado após mais
de 114 anos sem ocorrências confirmadas. A primeira soltura na área aconteceu
em dezembro de 2024 e, desde então, 25 indivíduos já vivem em liberdade, como
resultado de um processo de reintrodução baseado em solturas graduais e
monitoramento contínuo.
Sobre
a Associação Caatinga
A
Associação Caatinga é uma organização da sociedade civil, sem fins lucrativos,
cuja missão é conservar a Caatinga, difundir suas riquezas e inspirar as
pessoas a cuidar da natureza. Desde 1998, atua na proteção da Caatinga e no
fomento ao desenvolvimento local sustentável, incrementando a resiliência de
comunidades rurais à semiaridez e aos efeitos do aquecimento global.

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