O
avanço acelerado das relações de consumo no ambiente digital tem provocado uma
transformação silenciosa, porém profunda, no direito do consumidor no Brasil.
Em um cenário marcado pelo crescimento do comércio eletrônico, aumento de
fraudes online e maior consciência da população sobre seus direitos,
especialistas apontam que o país vive uma nova fase de fiscalização, exigência
e responsabilização das empresas.
Levantamentos
recentes de órgãos de defesa do consumidor indicam um crescimento significativo
no volume de reclamações relacionadas a golpes virtuais, fraudes em compras
online e falhas na prestação de serviços digitais, colocando o tema no centro
das discussões regulatórias e jurídicas no país.
Ao
mesmo tempo, o consumidor brasileiro está mais atento e informado.
Especialistas observam que há uma ampliação no conhecimento sobre direitos
básicos, especialmente em compras digitais, como o direito de arrependimento, o
que eleva o nível de exigência e pressão sobre empresas e plataformas.
Nesse
contexto, mudanças importantes já começam a ganhar força. A Agência Nacional de
Telecomunicações (Anatel), por exemplo, atualizou recentemente regras que
ampliam a proteção ao consumidor em serviços de telecomunicações, exigindo mais
transparência, facilidade de cancelamento e melhoria na qualidade do
atendimento.
Além
disso, cresce no país o entendimento jurídico de que plataformas digitais podem
ser responsabilizadas por produtos e serviços ofertados por terceiros,
especialmente em casos de irregularidades, uma mudança relevante no equilíbrio
das relações de consumo.
Outro
ponto que ganha destaque é o avanço de propostas legislativas para combater o
telemarketing abusivo, prática que segue entre as principais queixas dos
consumidores. Projetos em tramitação buscam restringir ligações insistentes,
uso de números mascarados e abordagens automatizadas, reforçando a necessidade
de respeito à privacidade.
Para a
advogada Genyffer Kasprzykowski, especialista no ambiente digital e CEO da Rois
Consultoria, esse movimento reflete uma mudança estrutural na relação entre
empresas e consumidores.
“Estamos
vivendo uma virada importante. O consumidor deixou de ser passivo e passou a
ocupar um papel ativo, questionador e mais informado. No ambiente digital, isso
se intensifica. Empresas que não acompanharem essa mudança e não adotarem
práticas transparentes e responsáveis correm o risco de perder reputação e
espaço no mercado”, afirma.
Segundo
a especialista, o novo cenário exige das marcas uma postura mais estratégica.
“Não se trata apenas de cumprir a legislação, mas de construir confiança. Hoje,
transparência, clareza na comunicação e experiência do cliente são fatores
decisivos na relação de consumo”, completa.
Com
mais de três décadas de vigência, o Código de Defesa do Consumidor segue como
um dos principais instrumentos de proteção no país, mas passa por um processo
contínuo de adaptação diante das novas dinâmicas digitais. A tendência é clara:
à medida que o consumo evolui, a régua de exigência também sobe, e acompanhar
esse movimento deixou de ser diferencial para se tornar uma necessidade.
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