O avanço
das apostas esportivas e dos jogos on-line no Brasil começa a deixar marcas que
ultrapassam as perdas financeiras e chegam ao ambiente de trabalho. Segundo o Ministério da Previdência Social,
os afastamentos de funcionários por vício em jogos, chamado de ludopatia,
dispararam no Brasil. Dados divulgados pelo Intercept Brasil apontam que entre
junho de 2023 e abril de 2025, os auxílios-doença por ludopatia somaram 276
concessões com um crescimento de 2.300% em dois anos.
A
explicação está na transformação desses jogos em uma atividade de fácil acesso,
através de aplicativos de celular, tornando-se parte da rotina das pessoas,
inclusive durante o expediente. Para a psicóloga Ana Beatriz de Oliveira,
docente do Instituto de Educação Médica (Idomed), é fundamental reconhecer que
a ludopatia é uma patologia que exige acompanhamento especializado.
Entre
os sinais de alerta estão o aumento progressivo das apostas, irritabilidade e
ansiedade quando a pessoa não consegue jogar, pensamentos recorrentes sobre
novas estratégias, insistência mesmo diante de prejuízos financeiros e
tentativas de recuperar perdas a qualquer custo. “Todos esses são indicativos
claros de é hora de procurar ajuda profissional”, afirma a psicóloga.
No ambiente
profissional, a especialista explica que as consequências podem aparecer antes
mesmo de um afastamento previdenciário. “Problemas financeiros, noites mal
dormidas, ansiedade, perda de concentração e preocupação constante com as
apostas podem comprometer o desempenho no trabalho e a convivência com
colegas”, explica a especialista. O avanço do problema também cria um desafio
para as empresas, pois o setor de recursos humanos agora passa a lidar com uma
questão que envolve saúde mental, endividamento, produtividade e relações
trabalhistas.
A
psicóloga ressalta que identificar o problema precocemente pode evitar que as
perdas avancem para outras áreas da vida. “Informação, acolhimento e acesso a
serviços especializados são fundamentais para que essas pessoas possam retomar
sua vida”. Sobre o tratamento, Ana Beatriz destaca que precisa incluir
psicoterapia, além de grupos de apoio. “Encontros coletivos criam uma rede de
troca e suporte onde o paciente encontra recursos para reduzir gatilhos e
prevenir recaídas”, afirma.
O que
de início era visto como um problema que envolvia consumo, publicidade,
arrecadação e endividamento agora também influencia na saúde ocupacional dos
que têm idade produtiva. Os números do INSS ainda representam uma parcela
pequena do total de benefícios concedidos, mas a estatística sugere que o
impacto da dependência em apostas pode estar apenas começando a surgir.
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