Desde
os primeiros sons entoados pela voz humana até as mais complexas sinfonias, a
música acompanha o homem em todas as fases da vida. Mais do que entretenimento,
ela é uma linguagem universal capaz de despertar emoções, fortalecer vínculos e
até curar. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), manifestações
artísticas e culturais têm impacto direto na saúde física e mental, e entre
todas as formas de expressão, a música se destaca por sua influência profunda
sobre o cérebro humano.
Durante
a pandemia da COVID-19, hospitais de todo o Brasil recorreram à musicoterapia
como forma de aliviar o sofrimento de pacientes internados. Cantar, ouvir ou
simplesmente estar exposto a melodias suaves ajudava a reduzir a ansiedade,
melhorar o humor e promover relaxamento, um recurso simples e eficaz diante de
dias de incerteza. Hoje, cientistas seguem explorando os efeitos neurológicos
da música. Estudos mostram que ela estimula diversas regiões do cérebro, como o
hipotálamo, responsável pelo equilíbrio do corpo e das emoções, e o tálamo,
ligado à interpretação dos sentidos e à memória. Ao mesmo tempo, a música ativa
neurotransmissores como dopamina, endorfina, ocitocina e serotonina,
substâncias associadas à sensação de prazer, felicidade e bem-estar.
De
acordo com um relatório do Conselho Global de Saúde Cerebral (GCBH), ouvir,
cantar ou tocar uma canção estimula diferentes áreas do cérebro de forma
coordenada, fortalecendo a memória, reduzindo o estresse e promovendo sensação
de equilíbrio. A pesquisa também destaca que cantar ou tocar em grupo melhora a
socialização e reduz a solidão, pilares fundamentais da saúde mental.
A
cantora e radialista Roberta Fiuza vive isso na pele desde a infância. “Meu pai
tocava violão e conversava comigo ainda na barriga. Ele me mostrava as capas
dos discos, as cifras, e eu ouvia tudo aquilo como se já fizesse parte de mim”,
conta. Desde pequena, ela percebeu que a música era abrigo e cura. “Ela sempre
foi colo, um grande socorro na minha vida. Muitas vezes, antes de subir no palco,
eu estava destruída emocionalmente, mas bastava cantar para tudo passar. É como
se naquele momento nada de ruim pudesse me alcançar.”
Roberta
lembra, emocionada, de quando o pai entrou em coma durante um dos momentos mais
importantes da carreira. Mesmo sem voz, ela subiu ao palco. “A música me
segurou. Foi o elo entre mim, meu pai e Deus. A arte tem esse poder de nos
sustentar quando nada mais parece fazer sentido”, revela.
Para o
psicólogo e coordenador do curso de Psicologia da Wyden, Miguel Lessa, a música
é uma poderosa ferramenta de regulação emocional. “Desde o nascimento, ela nos
acompanha como uma forma natural de expressar e acolher emoções. O corpo
responde aos ritmos e melodias, o coração desacelera, a respiração se torna
mais tranquila e a sensação de segurança aumenta.” Ele explica que a música
também tem papel social e terapêutico. “Ouvir, cantar ou tocar em grupo cria
conexões, combate a solidão e fortalece o sentimento de pertencimento. Na
musicoterapia, o som é usado para promover comunicação e bem-estar. A música
cuida não apenas da mente, mas dos laços humanos que sustentam nossa saúde
emocional.”
O
neurocirurgião Dr. Saulo Teixeira reforça que a música é um verdadeiro
exercício cerebral. “Ao ouvir uma canção, várias áreas do cérebro são ativadas
simultaneamente, do lobo temporal, que decodifica os sons, ao hipocampo,
responsável pelas memórias. Esse estímulo global favorece a chamada
plasticidade neuronal, fortalecendo as conexões entre os neurônios e mantendo o
cérebro mais saudável por mais tempo.”
Segundo
o especialista, a música é utilizada inclusive em terapias de reabilitação. “Na
recuperação de pacientes com AVC, Alzheimer e Parkinson, ela ajuda a evocar
lembranças e recuperar movimentos. Além disso, pessoas com fé ativa tendem a
ter menos estresse e melhor equilíbrio emocional. Fé e música, juntas, atuam
como remédio para o cérebro e para a alma.”
Essa
união entre espiritualidade e arte é sentida diariamente por Felipe Sousa,
músico de igreja e vendedor. “A música é obra do Criador. Quando toco, sinto a
presença de Deus. É um meio de adoração, não importa o lugar. A verdadeira
adoração transcende o ambiente”, afirma. Para ele, tocar é mais do que uma
atividade: é comunhão e cura. “Já vi pessoas se sentirem abraçadas por Deus
através de uma canção. A música cristocêntrica traz alívio, confronta e
restaura. Ela fala direto ao coração e revela o amor do Criador.”
Ciência
e fé se encontram quando o assunto é música. Seja no palco, em casa ou em um
hospital, ela desperta o que há de mais humano em nós: emoção, memória,
espiritualidade e conexão. Como explica o Dr. Saulo Teixeira, “ouvir ou fazer
música é, sim, uma forma de treinar o cérebro”.
E como
resume Roberta Fiuza: “A música nunca me faltou. Ela sempre foi colo, fé e verdade.
E quando sobra em mim, chega aos outros.”

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